sexta-feira, 28 de março de 2008

Pietro Citati sobre Kafka

"[Ele] era uma ausência, uma lacuna, um buraco que alguém tinha escavado, qualquer coisa de absolutamente negativo que um deus negro imaginara, uma forma vazia e inquieta que não conseguia olhar os estranhos na cara, não sabia responder às perguntas, não sabia pensar, falar, comer, amar, dormir como fazem os outros. Não possuía bases nem raízes, não tinha chão onde pousar, nem sequer aquele pouco de terreno onde os outros punham os pés e são sepultados, não tinha pátria nem família, nem coração, nem sentimentos, e se tentava pensar, nem todas as ideias se lhe apresentavam pela rais, mas algures pelo meio, pelo caule. "Experimentem segurar", gritava, "agarrar a vergôntea que começa no meio da haste."
A sua vida era como um exercício de malabaristas japoneses, que sobem por uma escada não apoiada no chão, mas nas plantas dos pés que um companheiro soerguido levanta, e que não se apoia numa parede, mas se ergue no ar sem qualquer outro apoio. Que podia fazer se não imitar aqueles trapezistas do nada, o símbolo mais fiel da sua arte, e também ele subir a escada sem raízes? Assim, foi aprendendo pouco a pouco os seus exercícios".

1 comentário:

Hugo Nofx disse...

Kafka, um dos escritores do meu imaginário. Um dos meus preferidos!!!

bjs.